Um resultado positivo para HPV oncogênico não define, sozinho, a conduta clínica. A genotipagem identifica se o tipo é 16, 18 ou outro oncogênico, e essa distinção, somada à citologia, estratifica quem vai direto à colposcopia e quem segue para citologia reflexa, segundo o protocolo do Ministério da Saúde e a diretriz da OMS de maio de 2026.
Sumário
- O que é a genotipagem de HPV e por que ela vai além do resultado positivo/negativo?
- O que a evidência científica mostra sobre estratificar risco por genótipo?
- O que o Ministério da Saúde recomenda para o rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil?
- Quais tipos de HPV devem orientar a conduta no rastreamento brasileiro?
- Triagem ou genotipagem estendida: qual a diferença na prática?
- Qual a solução da Bioperfectus para genotipagem molecular de HPV?
- Quais são as limitações dos dados apresentados?
- Perguntas frequentes
O que é a genotipagem de HPV e por que ela vai além do resultado positivo/negativo?
A genotipagem de HPV é um exame molecular que identifica qual tipo específico do vírus está presente numa amostra já positiva para HPV oncogênico, diferenciando os tipos 16 e 18, os de maior risco oncogênico, dos demais tipos oncogênicos testados em conjunto ou, num nível mais detalhado, identificando individualmente cada tipo presente.
Ela existe porque um resultado de triagem convencional, positivo ou negativo para o conjunto de tipos oncogênicos, não diferencia quem tem uma infecção pelo tipo 16 ou 18, de maior risco imediato, de quem tem uma infecção por um tipo oncogênico menos agressivo, e esses dois cenários pedem condutas diferentes.
A diretriz da OMS “WHO guideline for screening and treatment of cervical pre-cancer lesions for cervical cancer prevention: use of human papillomavirus (HPV) DNA genotyping”, publicada em 8 de maio de 2026, trata justamente desse ponto.
Ela avalia três níveis de genotipagem: nenhuma, limitada (separa só os tipos 16 e 18 dos demais) e estendida (identifica cada tipo individualmente). E orienta como usar essa informação para estratificar o risco dentro do algoritmo de rastreio, apoiando a decisão entre colposcopia imediata, repetição do teste ou tratamento.
As recomendações são destinadas à população geral de mulheres em rastreio, considerando a capacidade de cada sistema de saúde de oferecer acompanhamento e tratamento adequados.
O que a evidência científica mostra sobre estratificar risco por genótipo?
Um estudo de 2026 na revista Biomedicines avaliou 1.932 mulheres atendidas em um hospital da Turquia submetidas à biópsia cervical, das quais 15,9% tinham CIN3+ (sigla para neoplasia intraepitelial cervical grau 3 ou lesão mais grave, incluindo adenocarcinoma in situ e carcinoma invasivo, a lesão precursora que antecede diretamente o câncer de colo do útero).

Figura 1 — Risco de CIN3+ segundo citologia e genótipo de HPV. Fonte: Erbey et al. (2026), Biomedicines, 14(6), 1224.
Ao analisar os resultados da citologia e genotipagem, o risco de CIN3+ chegou a 79,6% a 83,7% na citologia de alto grau (HSIL) com HPV 16 ou 18, e ficou abaixo de 10% na citologia de baixo grau (ASC-US ou LSIL) com outro tipo de alto risco. Segundo os autores, uma triagem guiada por risco poderia reduzir em cerca de 29,7% as colposcopias desnecessárias.
Um estudo observacional na Noruega (Hashim et al., 2020) analisou 3.111 mulheres de 34 a 69 anos com HPV positivo no rastreamento primário. Com citologia normal, o risco de CIN3+ foi de 19,9% para o HPV 16 e de 10,8% para o HPV 18, contra 5,5% para os demais tipos de alto risco.
Com citologia alterada (ASC-US ou pior), os riscos foram de 57,8% para o HPV 16, 40,2% para o HPV 18 e 31,4% para os demais tipos. Os dados vêm de populações da Turquia e da Noruega, e não substituem o protocolo brasileiro descrito a seguir.
O que o Ministério da Saúde recomenda para o rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil?
O Brasil deve registrar cerca de 19,3 mil casos novos de câncer de colo do útero por ano no triênio 2026-2028, segundo o INCA.
A Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025, adota o teste de DNA-HPV oncogênico, com genotipagem parcial (HPV 16 e 18 isolados) ou estendida (mais tipos identificados individualmente), como método primário de rastreamento. Ele começa aos 25 anos e termina quando o último teste após os 60 anos é negativo, sem citologia simultânea (coteste).
Entre as evidências que sustentam o DNA-HPV como teste primário estão quatro ensaios randomizados europeus, com 176.464 mulheres. O rastreamento por HPV reduziu em cerca de 40% a incidência de câncer cervical invasivo em relação à citologia (razão de taxas 0,60; IC 95% 0,40 a 0,89, Ronco et al., 2014).
O resultado do teste define a conduta, conforme a tabela abaixo.
| Resultado do teste de DNA-HPV | Conduta segundo o Ministério da Saúde |
| HPV 16 e/ou 18 detectado | Encaminhamento direto à colposcopia |
| Outros tipos oncogênicos detectados | Citologia reflexa, preferencialmente na mesma amostra. Se alterada (ASC-US ou pior) ou insatisfatória, colposcopia. Se negativa, repetir o teste em 1 ano |
| HPV não detectado | Repetir o teste em 5 anos |
Quando o teste repetido em 1 ano é negativo, a mulher volta ao intervalo de 5 anos. Se o HPV de outro tipo oncogênico persistir após 24 meses, a colposcopia é indicada, independentemente da citologia.

Figura 2 — Fluxo de rastreamento com teste de DNA-HPV segundo o Ministério da Saúde. Fonte: Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025.
Para que a genotipagem do vírus altere a conduta clínica, o laboratório precisa ter um fluxo definido de correlação com a citologia.
Quais tipos de HPV devem orientar a conduta no rastreamento brasileiro?
Apenas os 12 tipos oncogênicos do grupo 1 da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), que reúne os agentes comprovadamente cancerígenos para humanos: 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58 e 59. Segundo a Nota Técnica Conjunta nº 130/2026, resultados de tipos que não são comprovadamente oncogênicos não devem orientar a conduta clínica no rastreamento.
| Tipos de HPV | Papel no rastreamento brasileiro | O que mais importa |
| 16 e 18 (grupo 1) | Colposcopia direta | Juntos, respondem por 71% dos cânceres cervicais com HPV detectado |
| 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58 e 59 (grupo 1) | Citologia reflexa | Com o 16 e o 18, os tipos 31, 33, 35, 45, 52 e 58 chegam a 91% dos cânceres |
| 66 e 68 | Podem constar no teste, mas não definem conduta | Estão presentes em vários testes validados |
| 26, 53, 73, 82, 6, 11 e 81 | Não orientam conduta no rastreamento | Úteis para vigilância epidemiológica, pesquisa e, no caso do 6 e do 11, diagnóstico de verrugas genitais |
Os percentuais da tabela vêm de um estudo mundial com 8.977 casos de câncer cervical com HPV detectado (de Sanjosé et al., 2010). É por isso que o protocolo brasileiro separa o 16 e o 18, que vão direto à colposcopia, dos demais tipos oncogênicos, que passam por citologia reflexa.
A Nota Técnica Conjunta nº 130/2026 complementa as diretrizes na parte dos testes: só são elegíveis testes de DNA-HPV por PCR, com genotipagem parcial ou estendida e validação clínica por critérios internacionais (Meijer et al., 2009; Arbyn et al., 2024). Os tipos 66 e 68 podem constar em testes validados, mas não definem conduta.
Triagem ou genotipagem estendida: qual a diferença na prática?
A diferença está na granularidade da informação que cada exame devolve e acompanha os dois níveis descritos pelo Ministério da Saúde e pela OMS.
| Critério | Triagem (16/18 + outros em conjunto) | Genotipagem estendida |
| O que identifica? | Relata os tipos 16 e 18 individualmente e os outros 16 tipos em conjunto | Relata cada um dos 21 tipos individualmente |
| Tipos do grupo 1 da IARC | Os 12 tipos | Os 12 tipos, cada um individualmente |
| Tipos fora do grupo 1 | 26, 53, 66, 68, 73 e 82, dentro do resultado em conjunto | Os mesmos seis, mais 6, 11 e 81, individualmente |
| Nível de genotipagem (MS e OMS) | Parcial (limitada) | Estendida |
| Quando é suficiente? | Quando a conduta já muda ao saber se o tipo viral é 16/18 ou não | Quando o acompanhamento do caso exige saber exatamente qual tipo oncogênico está presente |
| Produto Bioperfectus | Kit de Triagem de HPV por PCR | Kit de Genotipagem de HPV por PCR |
Qual a solução da Bioperfectus para genotipagem molecular de HPV?
A Bioperfectus possui dois kits de PCR em tempo real com registro ANVISA para triagem e genotipagem molecular de HPV, indicados para laboratórios e clínicas que estão estruturando fluxos de estratificação de risco. Os dois detectam os 12 tipos oncogênicos do grupo 1 da IARC. No kit de genotipagem, que identifica 21 tipos, esses 12 sustentam o rastreamento, 66 e 68 são tolerados e os outros 7 servem à vigilância, à pesquisa e ao diagnóstico de verrugas.
| Produto | O que detecta | Registro ANVISA |
| Kit de Triagem de HPV por PCR | HPV 16 e 18 individualmente e os outros 16 tipos em conjunto, incluindo os 12 tipos do grupo 1 da IARC | 82444370305 |
| Kit de Genotipagem de HPV por PCR | Identifica individualmente 21 tipos do vírus, incluindo os 12 tipos do grupo 1 da IARC | 82444370306 |
Quais são as limitações dos dados apresentados?
Os estudos citados vêm de um hospital turco e de uma população norueguesa, e mostram como genótipo e citologia estratificam o risco. Eles não avaliam o desempenho de um kit específico nem a população brasileira.
Na diretriz brasileira, as etapas com base mais forte são o DNA-HPV como teste primário, o intervalo de 5 anos e a triagem por genotipagem 16/18. O início do rastreamento aos 25 anos, a equivalência entre genotipagem parcial e estendida e o seguimento dos casos com outros tipos oncogênicos e citologia negativa têm evidência de certeza baixa ou se apoiam em opinião de especialistas, segundo a própria diretriz.
A Parte II das diretrizes, sobre avaliação, tratamento e seguimento, estava em consulta pública e pode trazer mais estratificação de risco. Por isso, a escolha entre triagem e genotipagem estendida deve considerar o protocolo adotado pelo serviço e a validação do laboratório.
Perguntas frequentes
Um resultado positivo para HPV oncogênico sempre exige colposcopia?
Não. Segundo o Ministério da Saúde, HPV 16 e/ou 18 vai direto para colposcopia, enquanto outros tipos oncogênicos passam primeiro por citologia reflexa, e só seguem para colposcopia se ela vier alterada (ASC-US ou pior) ou insatisfatória.
Os dados dos estudos turco e norueguês se aplicam à realidade do Brasil?
Não diretamente. Os estudos mostram como genótipo e citologia estratificam o risco, mas vêm de populações específicas, e no Brasil a conduta obedece à diretriz do Ministério da Saúde.
Os tipos de HPV fora do grupo 1 devem orientar a conduta no rastreamento?
Não. Segundo a Nota Técnica Conjunta nº 130/2026, resultados de tipos que não são comprovadamente oncogênicos não devem orientar a conduta clínica. Os tipos 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58 e 59 são os do grupo 1 da IARC, que reúne os agentes comprovadamente cancerígenos para humanos.
A genotipagem estendida muda a conduta em relação à parcial, no Brasil?
Hoje, não. O protocolo do Ministério da Saúde é o mesmo para as duas, e a diretriz justifica essa escolha por aceitabilidade e viabilidade. Há evidência de risco intermediário para os tipos 31, 33, 45, 52 e 58, mas isso ainda não alterou a conduta.
Qual a diferença na prática entre o kit de triagem e o de genotipagem estendida da Bioperfectus?
O kit de triagem relata os tipos 16 e 18 individualmente e os outros 16 tipos em conjunto, em um único tubo por amostra. O kit de genotipagem relata individualmente cada um dos 21 tipos, indicado quando o acompanhamento do caso exige esse nível de detalhe.
Referências
Diretrizes e evidência científica
1. World Health Organization. (2026). WHO guideline for screening and treatment of cervical pre-cancer lesions for cervical cancer prevention: use of human papillomavirus (HPV) DNA genotyping. Publicada em 8 de maio de 2026. https://www.who.int/publications/i/item/9789240121744
2. Ministério da Saúde (Brasil). (2025). Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer de Colo do Útero: Parte I, Rastreamento organizado utilizando testes moleculares para detecção de DNA-HPV Oncogênico. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/r/rastreamento-cancer-do-colo-do-utero
3. Nota Técnica Conjunta nº 130/2026/INCA/SAES/SVSA/MS. (2026). Complementa as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero na parte dos testes moleculares. https://ninho.inca.gov.br/jspui/bitstream/123456789/18226/1/SEI_0055283098_Nota_Tecnica_Conjunta_130%20%28003%29.pdf
4. Erbey, S., Sapmaz, M. A., Polat, M., Eroğlu, Ö. O., & Soysal, Ç. (2026). Risk-Based Triage Using Cytology and HPV Genotyping to Reduce Unnecessary Colposcopy: A Real-World Cross-Sectional Study. Biomedicines, 14(6), 1224. https://doi.org/10.3390/biomedicines14061224 (open access, CC BY 3.0)
5. Hashim, D., et al. (2020). Real-world data on cervical cancer risk stratification by cytology and HPV genotype to inform the management of HPV-positive women in routine cervical screening. British Journal of Cancer. https://doi.org/10.1038/s41416-020-0790-1
6. Ronco, G., et al. (2014). Efficacy of HPV-based screening for prevention of invasive cervical cancer: follow-up of four European randomised controlled trials. The Lancet. https://www.iarc.who.int/reference/efficacy-of-hpv-based-screening-for-prevention-of-invasive-cervical-cancer-follow-up-of-four-european-randomised-controlled-trials/
7. de Sanjosé, S., et al. (2010). Human papillomavirus genotype attribution in invasive cervical cancer: a retrospective cross-sectional worldwide study. The Lancet Oncology, 11(11), 1048-1056.
Panorama regional
8. Instituto Nacional de Câncer (INCA). (2026). Estimativa de casos de câncer no Brasil, triênio 2026-2028. https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/noticias/2026/inca-estima-781-mil-novos-casos-de-cancer-por-ano-no-brasil-entre-2026-e-2028
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