A atenção para a conscientização sobre a saúde masculina está em roga em 2026. Os cuidados preventivos e a busca precoce por assistência médica oferecem uma oportunidade para abordar uma questão crítica, mas frequentemente negligenciada, da saúde pública global.
Historicamente, a vigilância epidemiológica e as intervenções profiláticas relacionadas às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) — particularmente ao Papilomavírus Humano (HPV) — foram predominantemente centradas nas mulheres. Esse foco foi impulsionado principalmente pela elevada morbidade e mortalidade associadas ao câncer do colo do útero em todo o mundo. No entanto, dados epidemiológicos contemporâneos e modelos de dinâmica de transmissão contribuíram para uma mudança de entendimento. Atualmente, reconhece-se que os homens desempenham um papel fundamental na dinâmica de transmissão do HPV e de outras ISTs.
Compreender a prevalência dessas infecções em homens, suas disparidades regionais e seus impactos clínicos não é mais apenas uma questão de equidade de gênero. Trata-se de uma consideração epidemiológica essencial para o sucesso das estratégias globais de eliminação do câncer do colo do útero, para o controle de patógenos resistentes a antimicrobianos e para o combate mais amplo às infecções sexualmente transmissíveis.
A Base Global da Infecção por HPV em Homens
Revisões sistemáticas e meta-análises recentes estabeleceram referências epidemiológicas para a prevalência do HPV genital masculino em nível mundial. Os dados revelam uma carga infecciosa significativa:
- Globalmente, quase um em cada três homens com mais de 15 anos está infectado por pelo menos um tipo de HPV genital, representando uma prevalência global combinada de 31%;
- Aproximadamente 21% dos homens apresentam infecção ativa por um ou mais genótipos de HPV de alto risco oncogênico;
- Diferentemente do padrão observado nas mulheres, cuja prevalência tende a diminuir após os 30 anos de idade, a curva de prevalência masculina permanece notavelmente estável nas faixas etárias mais avançadas. Isso faz com que os homens sexualmente ativos constituam um reservatório contínuo e permanente para a transmissão do HPV ao longo da vida;
- Em relação aos genótipos, o HPV-16 é o tipo mais prevalente globalmente (5%), seguido pelo HPV-6 (4%).
Disparidades Regionais na Carga Viral
A distribuição da infecção por HPV em homens apresenta elevada heterogeneidade em diferentes regiões do mundo, sendo influenciada por fatores como comportamento sexual, estado imunológico da população e programas locais de prevenção e vacinação.
As análises epidemiológicas demonstram que a prevalência masculina do HPV varia significativamente entre continentes e países, refletindo diferenças nos padrões de exposição ao vírus, acesso aos serviços de saúde e cobertura vacinal. Essas disparidades regionais reforçam a necessidade de estratégias de prevenção adaptadas às características epidemiológicas de cada população.
América Latina e o Caribe apresentam uma das maiores prevalências de HPV genital masculino do mundo, com prevalência combinada superior a 31% para qualquer tipo de HPV. Esse valor coloca a região entre as áreas de maior circulação viral global, ficando atrás apenas da África Subsaariana (37%) e de Europa/América do Norte (36%), e em nível semelhante ao observado na Oceania (>31%).

No Brasil, especificamente, o HPV em homens também é prevalente. Em uma meta-análise realizada nessa população foi observado que a prevalência estimada da infecção com esse vírus no pênis foi de 36,21%. Numa estratificação dos estudos, também foi possível observar a prevalência em 3 regiões brasileiras, em que foi observado que na região Sudeste a prevalência observada foi de 39,61%, na região Sul foi de 54,55% e no Nordeste foi de 25,59%. Em relação aos genótipos de alto risco oncogênico, a prevalência no Brasil foi de 18,13%.
Variações de Prevalência Conforme o Sítio Anatômico
O HPV apresenta diferentes afinidades biológicas por distintos tecidos epiteliais. Como resultado, a prevalência da infecção varia consideravelmente de acordo com o local anatômico avaliado.
Essas diferenças tornam-se ainda mais evidentes quando a população é estratificada segundo o comportamento sexual, especialmente entre homens que fazem sexo com homens (HSH/MSM) e homens que não pertencem a esse grupo. Estudos demonstram que determinadas regiões anatômicas apresentam maior suscetibilidade à infecção persistente e ao desenvolvimento de lesões associadas ao HPV, evidenciando a importância de abordagens diagnósticas e preventivas específicas para diferentes populações de risco.

Impacto Clínico e Cânceres Associados ao HPV
A infecção persistente por genótipos de HPV de alto risco está associada ao desenvolvimento de diversas neoplasias em homens. Além de seu papel bem estabelecido no câncer do colo do útero em mulheres, o HPV está diretamente relacionado a cânceres anais, penianos e orofaríngeos na população masculina.
Estima-se que, em 2018, aproximadamente 69.400 novos casos de câncer em homens em todo o mundo tenham sido diretamente atribuídos à infecção por HPV. Esses dados evidenciam que o impacto clínico da infecção masculina vai muito além da transmissão viral, constituindo também um importante problema oncológico global.
O Impacto Econômico das Estratégias de Prevenção Masculina
A avaliação da relação custo-benefício da vacinação contra HPV em homens, especialmente por meio de programas de vacinação neutra em relação ao gênero (Gender-Neutral Vaccination – GNV), requer modelos econômicos abrangentes.
Modelos iniciais, que consideravam apenas a prevenção do câncer cervical feminino, sugeriam benefício econômico limitado para a vacinação masculina. Entretanto, análises mais recentes que incorporam a prevenção de cânceres anogenitais, orofaríngeos e verrugas genitais em homens demonstram ganhos substanciais em saúde pública e economia de recursos.
- China: um modelo dinâmico envolvendo meninos de 14 anos vacinados com a vacina nonavalente (9vHPV), associado à testagem para HPV, demonstrou uma razão incremental de custo-efetividade (ICER) altamente favorável, de ¥139,58 RMB por QALY;
- Noruega: a adoção de uma estratégia de vacinação neutra em relação ao gênero com a vacina 9vHPV poderá gerar uma economia estimada entre €62 e €68 milhões em custos evitados de tratamento oncológico.
Além disso, a imunidade de rebanho proporcionada pela vacinação contra HPV poderá permitir a otimização futura dos programas de rastreamento do câncer cervical, desde que as políticas de triagem sejam ajustadas de acordo com a epidemiologia local, cobertura vacinal e diretrizes de saúde pública.
A Carga Global das ISTs Curáveis em Homens
Além da elevada carga viral associada ao HPV, a saúde pública mundial também enfrenta uma enorme carga de infecções sexualmente transmissíveis bacterianas e protozoárias que podem ser tratadas e curadas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de um milhão de novas ISTs curáveis são adquiridas diariamente por indivíduos entre 15 e 49 anos. Esse cenário evidencia a necessidade de ampliar programas de prevenção, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento, especialmente em populações masculinas frequentemente sub-representadas em iniciativas de saúde sexual.

Principais Conclusões
Os dados epidemiológicos disponíveis demonstram claramente a importância da inclusão dos homens nas estratégias de prevenção do HPV e de outras ISTs. A carga dessas infecções não afeta apenas a saúde masculina, mas está intimamente relacionada a objetivos mais amplos de saúde pública, incluindo o controle das ISTs, a contenção da resistência antimicrobiana e os esforços globais para a eliminação do câncer do colo do útero.
Uma abordagem verdadeiramente abrangente deve contemplar homens e mulheres de forma integrada. Estratégias neutras em relação ao gênero, apoiadas por vacinação, educação em saúde, testagem oportuna e capacidade robusta de diagnóstico molecular, podem contribuir significativamente para a redução da transmissão viral, aumento da conscientização e fortalecimento dos sistemas de prevenção.
À medida que a Semana Internacional da Saúde do Homem de 2026 reforça a importância da conscientização e dos cuidados preventivos, a epidemiologia do HPV e das ISTs em homens merece maior visibilidade nas discussões globais de saúde. O enfrentamento dessas infecções por meio de estratégias baseadas em evidências científicas e diagnóstico molecular de alta qualidade pode promover melhores desfechos de saúde para os homens e apoiar os esforços mundiais de controle do HPV e de outras infecções sexualmente transmissíveis.
Referências
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